segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Nossa vida de adulto

Outro dia, estava pacientemente na fila do banco, quando observei a seguinte cena: duas crianças, de aproximadamente três e cinco anos, brincando livres, correndo e gritando no espaço amplo do banco, enquanto a mãe, sentada, esperava para falar com o gerente.
As crianças acharam algo divertido: no meio daquele “pátio”, havia uma mesinha alta de mármore, para preencher cheques. Perfeito para novas brincadeiras.
Começaram a se pendurar nela, corriam e voltavam a se pendurar.
Após alguns minutos, o guarda do banco perguntou à mulher se ela era a mãe das crianças. Falou de certa distância, de modo que todos escutaram o diálogo. Ela fez que sim com a cabeça, assustada como se tivesse sido pega em flagrante. Ele, então, disse: “A mesa não está presa no chão, pode cair em cima das crianças”.
A mãe, constrangida, gritou com elas. A menor pareceu não entender, mas achou prudente se afastar, e foi fazer um trenzinho de cadeiras atrás de uma senhora que também esperava para falar com o gerente.
A maior, olhando para a mãe, pendurou-se novamente e levou um tapa.
Seu choro ecoou pelo banco, e pude notar a expressão das pessoas que assistiam à cena: alguns se irritaram por já estarem numa situação desagradável de espera e ainda ter que ouvir choro de criança, outros repreenderam a mãe com o olhar, talvez pensando que banco não é lugar para se levar criança, outros comentavam entre si: criança é fogo... Todos com ar de “nós, adultos, sabemos o que estamos fazendo”.
Comecei a pensar no que isto significa. Não estou falando no fato real, é claro que as crianças precisam ser protegidas do perigo. Estou falando do mal estar que se formou.
A mãe deve ter reagido com agressão porque também se sentiu agredida: pelo guarda, pelas pessoas que olhavam, pelas próprias crianças que não “sabiam se comportar”.
As crianças correm e deslizam pelo chão brilhante do banco, gritam para ver se faz eco, balançam a caneta que fica pendurada naquela cordinha, ficam impacientes com a demora e demonstram isto.
Poderiam fazer isso num parquinho, e não incomodar ninguém. Mas fazem isto num ambiente de adultos, e nos atrapalha.
. Aí me lembrei da história do rei nu.
A criança a todo momento nos mostra como somos incoerentes, como fazemos nosso dia a dia ficar chato, preso a conveniências e hipocrisias. E ela inunda tudo isto com vida, risos, rebeldia. Correndo pra lá e pra cá, como causa inveja aos nossos corpos flácidos e obedientes, um atrás do outro! Como sua alegria ofende nossa ordem!

Bem, depois disso, chegou minha vez e fui interrompida nos meus pensamentos. Mas ficou na minha cabeça uma dúvida: sabemos mesmo o que estamos fazendo?

3 comentários:

Danilo Macedo Marques - 35 anos disse...

Parabéns pelo texto...

Melissa Caetano disse...

Que blog fofo! Amei os textos!
Melissa.

Edina Sikora disse...

empatia...
é isso que sinto com este texto...
já pensou se nós ao invés de ficarmos com caras sérias e estressadas brincássemos como as crianças no banco?
o mundo seria mágico, mas não adulto-sério...sou artista plástica e também procuro resgatar a criança em cada um de nós...parabéns voce escreve e toca fundo na alma da gente.